CURADORES DA MALOCA DRAGÃO 2018

 

Com maior parte da programação composta a partir de projetos artísticos inscritos por meio de uma Chamada Pública, a Maloca Dragão 2018 possui um super time de curadores em cada linguagem. Confira quem são eles e a linha curatorial adotada por cada um nesse processo de seleção. Os selecionados via Chamada vão compor uma parte da programação do festival, que tem ainda artistas e grupos convidados. 

 

 

"A cena circense no Ceará mostra uma crescente em diversos sentidos. A cada ano, o número de praticantes e trabalhos tem aumentado, além de uma pluralidade das formas de composição que tem proporcionado novas estéticas e poéticas que passam pelo recorte de uma linguagem que em sua essência é marcada pela diversidade. 

O convite de realizar a curadoria para o Maloca 2018 dos trabalhos de circo chegou como um desafio criativo. Na busca de um pensamento crítico e no estabelecimento por conexões que pudesse proporcionar aos artistas e ao público uma fruição de aproximação com os diversos modos de fazer que se estabelecem dentro da própria linguagem. A qualidade artística de todas as propostas aponta para uma ampliação das políticas e dos espaços destinados ao circo no circuito cearense, tensionando o processo de seleção na busca de critérios que dialogassem com o festival, com a cidade e com a cena.

Portanto, multiplicidade, territorialidade, fruição, políticas de acesso e fomento foram ferramentas balizadoras para o recorte realizado nessa edição da Maloca, visando a um fortalecimento da cena circense cearense e das questões que ela vem provocando nos últimos anos".

 

 

 

"A minha curadoria para a Maloca Dragão consistiu em selecionar os projetos que mais se aproximavam de um conceito de literatura, mesmo considerando os vários diálogos que ela mantém com as outras artes. Já existem na mostra dança, música, teatro, cultura popular, movimentos de periferia. Dei preferência aos projetos de editoração e publicação 'cartonera, fanzine, histórias em quadrinho', mesas redondas, saraus, oficinas e produção de poesia/imagem. Quase metade dos projetos propunham contação de história, num formato mais próximo ao teatro e à música. A curadoria fugiu ao modelo das feiras, festas e bienais, pela própria natureza dos projetos inscritos. Ao final, alcançamos uma amostragem ampla e diversificada".

 

 

 

"O que (nos) inquieta (n)os espetáculos selecionados é um dançar como resistência, um ir contra a maré, ao mesmo tempo que uma entrega à experiência de resistir. Comunicam estéticas interseccionais (raça, gênero, classe) e/ou dissidentes (discordantes, indisciplinares). Dialogam tensionando o que vivemos com o Brasil. Faz-nos conhecer, desconhecer e reconhecer. Dançares que são dizeres em reexistências.

Enquanto corpos cênicos, artisticamente, acionam estados críticos, de crise, de estar num limite entre o que está posto e o que está por vir. Diante de uma realidade que, diariamente, violenta-nos com discursos de ódio, opressão e ataque às liberdades, as danças que estes espetáculos instauram podem ser, e são, um tipo de antídoto ou anticorpo (ou os dois juntos). Na comunicação desses corpos que dançam, com ela e nela, é possível, sim, reexistirmos politicamente.

Como e para onde, então, essas danças nos 'coreografam' e 'comovem' no refletir com a sociedade, criticamente? Eis o desafio enquanto curadoria engajada, movida e incorporada de dilemas e provocações de um agora outrora e de um outrora agora. Pois se resistir é reexistir, dancemos!"

 

 

 

 

"O Ceará é referência pela sua diversidade cultural, presente na pluralidade das expressões da cultura tradicional e popular. São pastoris, lapinhas, bois, teatro de bonecos, culturas indígenas, xilogravuras, tradições juninas, reisados, maracatus, dança de coco e tantas outras expressões que permeiam o território cearense. No Festival Maloca Dragão, não poderia ser diferente, tanto em edições anteriores quanto nessa edição, que considero especial por trazer a novidade de um eixo específico para as culturas populares tradicionais, dando oportunidade aos grupos que trazem um repertório de sons, ritmos e cores das tradições cearenses. A Maloca é uma oportunidade para que as pessoas possam vivenciar essas expressões que nos são repassadas por muitas gerações".

 

 

 

 

"Na categoria Arte Urbana, o festival recebeu 33 inscrições. Foram selecionados nove projetos que vão desde murais, grafites e performances a intervenções. Para além dos selecionados, também contamos com seis artistas convidados. Pelo limite de vagas a serem preenchidas, tive que fazer escolhas dentre todas as propostas recebidas. Os critérios de avaliação foram pertinência quanto ao tema, criatividade e inovação. Foram privilegiadas propostas que não haviam sido ainda realizadas em outras edições do Maloca ou em outro momento na cidade".

 

 

 

 

"A produção cênica cearense é marcada pela diversidade de traços estilísticos, temas e modos de produção. Em especial, vale destacar o trabalho continuado dos grupos teatrais, coletivos que alimentam, provocam, reinventam e lutam pelas artes da cena no estado. Diante desse rico mosaico de possibilidades para compor uma programação, optei por ecoar o tema proposto para a Maloca Dragão 2018 - "As barricadas abriram caminho: 50 anos de maio de 68" - como procedimento para orientar o meu olhar para os mais de noventa projetos inscritos. 

Entendo que o passado (maio de 1968) ainda nos deixa ouvir seus gritos e palavras de ordem que se somam ao coro dos lúcidos num Brasil desigual, dividido e injusto nesse 2018 que nos convoca à ação. Desse modo, me interessa propor uma elaboração do passado (tendo como ponto de partida os movimentos de 1968) de um modo ativo e crítico, desviando de uma noção narcísica ou melancólica para olhar o tempo e a memória. Acredito, como propõe Jeanne Marie Gagnebin, que a elaboração do passado "lembra dos mortos, por piedade e fidelidade, mas também por amor aos vivos".

É por amor aos vivos que essa curadoria tenta tomar partido e amplificar as vozes de contestação de nosso tempo, presentes nos espetáculos e performances selecionadas. Nessa perspectiva, propomos três eixos de discussão a partir dos trabalhos apresentados. Logicamente, não pretendo aqui enquadrar uma obra de arte a um rótulo temático ou formal (cada obra é um organismo complexo que abre múltiplas possibilidades de leitura e relação), gostaria apenas de apontar aspectos que emergiram do meu contato com as propostas inscritas, com o tema do evento e com as ruas de nosso país. São esses os eixos:

 - Memórias da Resistência - trabalhos que tomam a história como material criativo, recuperando movimentos e pessoas engajadas na luta pela liberdade e por uma sociedade mais igualitária: "Frei Tito", "Nossos Mortos", "Cruz do Deserto" e nossa homenagem ao dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999), um dos autores mais censurados na história do Brasil, com a montagem "Navalha na Carne";

- Corpos da/de luta - obras que colocam em discussão lutas por igualdade de direitos, especialmente problematizando questões de ordem racial, de gênero, orientação sexual, além de afirmar identidades: "Cardinal", "Entre nós: buzinas, chicotes e ácidos", "Expurgo", "Aquelas", "Serviçal", "Iroko" (infantil) e o convidado nacional "Vaga Carne", de Grace Passo (MG);

- Fricções Políticas - criações que exploram as micropolíticas presentes nas relações íntimas/privadas e as macropolíticas da vida social e de suas instituições. Além disso, engloba também como fricção política trabalhos que tensionam estruturas convencionais da cena, partindo da linguagem para expandir o pensamento em outras estruturas: "Peça para dias de chuva"; "Retorno a Juberlano"; "Playback"; "Marlene"; "Urubus"; os convidados nacionais "Cabeça ? um documentário cênico" (RJ) e "Altíssimo" (PE) e a atração internacional "Pequeña Ficcíon Política" (Chile)."

 

 

 

 

"A quinta edição do Festival Maloca do Dragão abraçou mais uma vez a gastronomia como parte do seu programa cultural. Este ano, através de uma chamada que permitiu ao trabalho de curadoria selecionar profissionais deste setor em Fortaleza, o espaço de alimentação acontece de forma mais rica e representativa.

Serão mais de 15 boxes com comidinhas que têm a cara de Fortaleza: alguns que já fazem parte dos roteiros gastronômicos da cidade e outros que terão a chance de mostrar ao público do festival. Serão pastéis, doces caseiros, comidinhas regionais, acarajé, sanduiches. Cada profissional pensou um cardápio especial para o evento. Abrir espaço para gastronomia no Maloca fortalece este setor como manifestação cultural, além de criar fantásticos espaços de convivência no próprio festival".